Tradução tóxica: Um programa de doze passos para tradutores masoquistas – Juliana Samel

Translation by Juliana Samel from her blog.

18 jul 10

O post que reproduzo a seguir me fez rir muito, e recentemente foi tuitado por outros tradutores. Estava aqui com a autorização do autor para traduzir o post desde maio, mas só agora tive tempo! Evidente que não concordo com tudo, mas dá bem a ideia do que vemos no nosso trabalho.

O post original está aqui.

Boa leitura!

Tradução tóxica: Um programa de doze passos para tradutores masoquistas

Os Doze Passos

1. Admita que você é impotente perante agências de tradução.

2. Faça um inventário profundo e implacável das vezes em que você se viu pensando: “É melhor pegar esse trabalho por $ 0,0000000006 por palavra. Se eu não pegar, outra pessoa pega!” ou “Um cliente que paga regularmente em 8275 dias ainda é melhor do que um que dá calote!” ou ainda “As agências são um negócio como outro qualquer, é natural que tentem ganhar tanto dinheiro quanto possível”. Reconheça que encontrar justificativas para um comportamento injustificável é um vício e que a sua vida como tradutor se tornou incontrolável.

3. Prepare-se para ouvir uma verdade do universo em doze palavras: Os preços de tradução estão caindo porque os tradutores aceitam preços baixos. Se você quer que seus preços parem de cair, tire o pé do acelerador na ladeira. Agora mesmo. Não existe droga para pessoas que estão dispostas a traduzir por a metade do valor médio pago a um garçom, então a única maneira de combater esse vício é de bate-pronto. Compense explicando de forma clara, sempre que responder a uma oferta insultante, recusar um trabalho mal remunerado, ou recusar um convite para reduzir seu preço, a razão pela qual está recusando. Eu sei que a etiqueta diz que não devemos dizer a pessoas grosseiras e mal-educadas que elas são grosseiras e mal-educadas, mas acho que a etiqueta prevê uma exceção no caso dos tradutores. Maus-pagadores são os predadores abissais no oceano da tradução. Não hesite em enviá-los de volta para a lama de onde vieram.

4. Se você está realmente vivendo de Miojo, não consegue pagar o aluguel, ou está diluindo cola pra dar ao seu filho porque fica mais barato do que leite, aí sim você tem uma excelente desculpa para aceitar condições de trabalho e salários insultantes. Temporariamente. Enquanto procura um emprego que lhe pague um salário digno e não ferre seus colegas que dependem da tradução para sua subsistência. Se esse não for o caso, você não tem desculpa. Nem tudo na vida é preto no branco, mas isso é. Enquanto isso, se você não está realmente passando necessidade, pare de usar esse pretexto para justificar sua participação na destruição da profissão. Qualquer um de nós pode um dia encontrar uma fila de cobradores na porta, mas isso não acontece com todo mundo o tempo todo. Não use a verdadeira miséria de uns para disfarçar o fato de que você não conseguiria encontrar seu respeito próprio mesmo que tivesse um guia sherpa e um GPS.

5. Por outro lado, se seus pais ainda estão pagando seu aluguel e abastecem a dispensa, se seu marido é o CEO da Halliburton ou o presidente da Mediaset, ou se você é herdeiro de uma fortuna e que “ama línguas”, faça algo de bom para a profissão e para sua alma imortal e traduza de graça. Existem dezenas, ou mesmo centenas, de organizações sem fins lucrativos dignas que precisam da sua ajuda. Enquanto isso, alguns de nós aqui estamos tentando ganhar nosso sustento. Seu preço de esmola está matando tradutores que dependem da tradução como sua única fonte de renda.

6. Aceite o fato de que o seu diploma da Escola Acme de Mediação de Idiomas ou da Academia Flinghurst de Tradutologia, no fim das contas, não vale nada. Tradução se aprende na vida, não na sala de aula. Porém, se você se formou recentemente em um desses cursos, faça o seguinte até que esteja realmente preparado para fazer jus aos preços profissionais: torne-se aprendiz de um tradutor de confiança, doe traduções para uma causa digna para engordar o currículo (ver no 5, acima), gaste seu tempo livre praticando traduções para sua formação pessoal, melhore sua capacidade de escrever na sua língua materna, leia (e muito) em ambas as línguas. NÃO: ofereça traduções com descontos nem implore aos seus clientes para deixá-lo trabalhar “por praticamente nada” porque você “ama traduzir”. Por que não? Pelo mesmo motivo que no zoológico há uma placa “Não alimente os macacos”. Porque, se você fizer isso, eles ficam gordos e preguiçosos e nunca aprendem que as bananas profissionais e bem qualificadas não são distribuídas por aí de graça.

7. Pare de permitir que os clientes ditem seus preços e suas condições de trabalho. Você realmente precisa que eu faça a analogia mais uma vez? Mesmo? Então tá, lá vai. Você vai a um restaurante e, depois de consultar o menu, chama o proprietário para sua mesa e diz: “Este bife está superfaturado, vou pagar a metade e quero que você inclua uma garrafa de vinho por esse preço. Mas se não estiver tudo na minha mesa no prazo de dez minutos, o negócio está cancelado”. Se você fizer isso num restaurante, vai receber um bom chute no traseiro. Já na tradução, você diz: “Oh, sim, Sr. Cliente, muito obrigado, Sr. Cliente, por favor mande sempre mais trabalho assim, Sr. Cliente”. Três palavras: Pare – com – isso.

8. Pare de usar a internet até aprender a usar direito. O “freedictionary” não é um recurso profissional; o Wordreference.com e o Yahoo! Answers não são fóruns em que você pode consultar colegas confiáveis e experientes. Cerca de metade das respostas nos KudoZ do ProZ.com estão erradas. A Wiki muitas vezes vale tanto quanto uma folha de papel. O Google não é seu amigo; faça uma busca por “pobrema” e veja quantos resultados você obtém (41.000). Depois disso a gente conversa sobre como pesquisas na internet são úteis para confirmar o uso de uma palavra. (Caramba! Traduzir, no final das contas, pode ser bem mais difícil do que você imaginava, hein?)

9. Se um cliente não pagar no prazo (ou der calote), pare de trabalhar para ele. Agências, editoras e clientes que não pagam conforme o combinado são como homens que batem nas esposas. Eles vão fazer de novo. A única pergunta é: Você vai estar parado no mesmo lugar quando o golpe vier? (Teste rápido: “Foi sem querer”, “Eles estão passando por um período difícil” e “Se eu o largar, posso nunca mais encontrar outro” são frases habitualmente usadas por: [a] esposas maltratadas; [b] tradutores masoquistas, [c] os dois.)

10. Tradução não é ‘Ndrangheta. Ninguém vai mandar você dormir com os peixes se falhar em seu compromisso de omertà. Diga aos seus colegas quando um cliente não pagar, quando fazem exigências exageradas, quando revisam o texto sem avisar, quando insistem em tentar baixar suas tarifas, quando se esquecem de colocar seu nome na tradução, quando mudam o combinado depois de começado o serviço, quando se recusam a pagar a taxa de urgência ou de horas-extra, quando exigem descontos indevidos. Aceitar essas condições em silêncio não faz de você um cara esperto, faz de você um cúmplice.

11. Defenda seu idioma materno. Orgulhe-se de vê-lo sendo bem usado, com eloquência e fluência. Ofenda-se quando ele for maltratado e desrespeitado. Não acredite nesse modismo de globalização, línguas do mundo, coisa e tal. Pare de aceitar a alegação absurda e não comprovada de que a tradução por um não-nativo é tão válida quanto a tradução por um nativo, ou que as pessoas que lêem traduções em sua segunda língua “não se importam” se o texto está bem escrito ou não. Sua capacidade de aplicar sua língua materna com sofisticação, flexibilidade e habilidade é sua ferramenta de venda mais importante. Você pode nunca ter sucesso em convencer todos da importância desta questão, mas pense no seguinte: muitas pessoas acham que é aceitável beber vinho vendido em caixas longa vida, assistir à Fox News, ou comprar CDs da Lady Gaga. Se você é um profissional da tradução, deveria estar acima dessas coisas.

12. Se existe uma coisa pior do que tradutores que se queixam o tempo todo, são os tradutores que se queixam de tradutores que se queixam o tempo todo. Vamos supor que você ganha muito dinheiro, seus clientes respeitam seu tempo e seu conhecimento e todo mundo paga de imediato. O nome disso, na verdade, é sorte enorme, não licença para monólogos nos ouvidos de todos sobre como deveriam parar de reclamar e voltar ao trabalho. O fato de tradutores reclamarem é bom, indica a existência de auto-estima e de um instinto de autopreservação, diferente da sua ideia de superioridade e presunção de cada um por si. Se não tiver nada a dizer para ajudar o avanço da profissão (não apenas da sua pequeníssima fatia), tenha a decência de ao menos sair da frente de pessoas que estão tentando melhorar a situação (inclusive para você, mané).

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One Response to Tradução tóxica: Um programa de doze passos para tradutores masoquistas – Juliana Samel

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